30 de maio de 2012

"Pedaços de mim, Pedaços de Nós" - Carta V



Meu sonho lindo,

Continuo a escrever-te como se fosses ler quando chegasses a casa, encontrando esta carta em cima da cama, dentro dum coração feito de pétalas de rosas vermelhas. Quero dizer-te aquilo que tu já sabes. Não aguento a dor desta tua ausência. Simplesmente vivo do passado. Vivo de ti. Vivo do nosso amor. E é eterno este sentimento que agora machuca. Sinto-te em cada pêlo que vive na minha pele, em cada partícula dessa pele que cobre meu corpo repleto de veias, onde o meu sangue corre a pensar em ti. E por te sentir tanto, escondo-me da verdade, não querendo interiorizá-la em mim. E fujo, como um prisioneiro sem rumo. Mas onde estás tu?
Ontem julguei ver-te no infinito, enquanto estava sentado no Jardim da Graça, sentindo o vento percorrer os espaços vazios no anoitecer do dia. Estavas linda, brilhavas como quando te vi pela primeira vez, formosa numa completa doçura corporal. Mas rapidamente desapareceste. De tantas estrelas que via, tu, a estrela que mais queria não encontrava. Fechei os olhos, e a noite encheu-me de solidão. E subitamente o Verão tornou-se Inverno, e a chuva pedia-me esmola num sufrágio dos céus. Choro sem lágrimas, grito sem voz, abraço-te sem estares aqui… Perdido no nosso sonho, esperando por ti, como se disso dependesse a minha vida. E escrevo-te porque minha mão me tortura, porque vivo em amargura, e tenho medo de entrar na loucura.
Hoje falei com Deus. Pedi-lhe para mudar o guião do meu destino e te trazer de volta para mim. Pedi-lhe perdão por, às vezes, desejar estar no lugar dele, só para estar junto a ti. E pedi-lhe em pranto que fizesse da minha vida um poema, trazendo-te numa nuvem de algodão, enchendo assim de felicidade o meu coração. Não sei se ele me ouviu, mas senti por momentos uma serenidade dentro do meu peito, desvanecendo parte da minha tristeza. Comecei a olhar para a nossa parede azul, lembrando-me de quando estivemos naquela tarde primaveril a pintá-la. Podíamos até não saber pintar, mas é o azul mais lindo que alguma vez quereria ter no nosso quarto… Um azul pintado com amor… Nós próprios cheios desse azul, cheios desse amor. Acabámos essa noite no velho cais de Machico, com mergulhos que nos tiraram o azul… Mas não tiraram o amor.
Hoje sou recluso desse amor. Rego-te todos os dias, minha flor de saudade, no jardim do meu coração. Engano a dor que insiste em arder silenciosa, ao divagar em sonhos tão profundos que alguns nem cabem neste mundo. Ai se eu pudesse ir ao limite desses sonhos, e num instante atroz conseguisse embrulhá-los junto da minha realidade presente! Provavelmente congelaria o tempo e me deleitaria eternamente com o teu rosto inocente e macio, com o teu perfume de paixão, com o teu olhar que me deixa sem palavras, e com o teu corpo que é um raro e cativante diamante lapidado.
Sabes amor, não sei que dia é hoje, nem sei que horas são, porque isso também não interessa. Não tenho relógio, pois não existe tempo sem ti. Tu eras a minha bússola. Eu sabia a cada dia para onde tinha de ir, o que tinha que fazer e o porquê de o fazer. Sabia, porque tinha um objectivo definido. Era amar-te e fazer-te feliz. Tudo o que fazia girava em torno de ti, e adorava, porque fazias-me feliz.
A noite já deve ir longa mas não tenho sono, não quero dormir. Faz-me lembrar aquelas noites frias quando fingia ficar com insónias para passar a noite inteira junto a ti, olhando no interior dos teus olhos e oferecendo-te um bocadinho do meu calor. Calor que tu criaste, o nosso, o meu. E era tão bom, porque lá fora o frio arrepiava. Tu sabias que as insónias eram só uma desculpa, pois dias depois também tu já aparecias com insónias, enfim, desculpas para uma plena aproximação enfeitada de um sublime amor. Nós teimávamos em apertar os nossos corpos um ao outro, talvez acreditando que a nossa conjunção astral se tornasse na realidade carnal. Mas carnal era o desejo que existia, além do amor. Sexo é como chamam os humanos. Aquilo que muitos pensam ser o auge da afectividade. Longe disso. Uma terapia, talvez. Para nós era o complemento perfeito para tudo aquilo que se resumia num imensurável e genuíno amor. Ai, saudades, saudades!
Lembro princesa das nossas conversas, dos planos imensos para um futuro cheio de simplicidade e de magia ao mesmo tempo, lembro-me de tudo. E porque me lembro não consigo viver mais uma vida que não faz sentido. Sabes, esta dor, eu não sei como suportá-la. É como uma flecha a espetar-me a solidão. Depois de partires essa solidão tornou-se a minha companheira constante, e sei que até sempre, pois não existe ninguém mortal que te possa substituir. É o que sinto. Ou talvez o meu subconsciente não quer aceitar que te perdi. Não sei. O que eu sei é que aqui ao meu lado está a solidão, e se um dia ela se cansar de mim, provavelmente estarei indo ao teu encontro.

Porque te amo princesa, esta carta é para ti. Para ti, para sempre.
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Carta 5 de 7 de "Pedaços de Mim, Pedaços de Nós" - 3º premiado do VI Concurso Literário Francisco Álvares de Nóbrega - Camões Pequeno

9 de maio de 2012

"Pedaços de mim, Pedaços de Nós" - Carta IV



Minha eterna amada,

Esta noite fiz a tua sobremesa favorita, tarte de natas. Coloco no teu lugar uma fatia. A cadeira está vazia, mas ela é tua. A noite é linda, mas não tem Lua. A dor é suportável, mas é crua. Fecho os olhos, mas a dor continua. Dirijo-me para o quarto, imagino-te ali nua. Tento te abraçar, mas a tua imagem dissipa-se, recua. Choro, vou jogar-me para a rua. Percorro assim algumas das ruas de Machico, que um dia também percorremos. A minha mente vagueia, os meus pensamentos vão e voltam, amassam-se, e o meu corpo não consegue compreender.
Sinto-me sufocado com a tua falta. Preciso dizer-te o que penso e sinto. Como se ainda estivesses aqui, no momento derradeiro da tua ida. Mas minha voz se descinge, e grito um silêncio ensurdecedor. Estou com uma raiva imensa da Morte! Se pudesse, mataria a Morte numa morte mortificante. Estou perdido dentro de mim mesmo, num labirinto infinito de saudades.
Lembrando-me de ti, do tempo em que estavas ao meu lado. Mas quando recordo esses tempos, a saudade magoa contraindo o meu peito, como uma ferida aberta que nunca se restabelecerá. Lembro meticulosamente as brincadeiras, as carícias, as longas noites de amor puro, a ternura, o respeito, a compreensão, a amizade, e aquele muito restante que jamais voltará. Lembro-me do teu jeito de me tornar menino, aquelas maluquices, as cócegas, as sessões de cinema em casa, aquele delicioso gelado, que na tua pele mais delicioso ficava. Recordo-me dos momentos de entrega total, sem vergonha ou pudor, onde nos desnudamos fervorosamente de corpo e alma, como se estivéssemos a arder, correndo desesperadamente para a água do mar. E ardíamos. Ardíamos de sentimentos, de expressões corporalmente irrepreensíveis de um grande e raro amor.
Hoje arde a dor, descontroladamente, com este coração transbordando de saudades, com uma febre do desejo não saciado, sabendo que no dia em que partiste a vida deixou de fazer sentido. E ainda sinto tuas mãos a percorrer o meu corpo, ainda sinto o teu respirar intenso nos teus auges de prazer, ainda sinto que poderás vir novamente me fazer feliz.
E chamam-me louco. Temo que a verdade seja superior a mim, à minha capacidade de resistir-lhe. Receio não ser capaz de querer acordar um dia, para não sofrer com este vazio insustentável no meu ser. Às vezes gostava de não me lembrar de nada, pois quanto mais me lembro, mais sofro. E quanto mais sofro, menos vontade tenho de viver. E quanto menos vontade de viver, mais desejo morrer para ir ter contigo. E então volto a querer me lembrar de tudo! Os dias que teimosamente apressavam-se a passar quando eu tinha-te junto a mim. As noites que percorremos distâncias longas que ficavam curtas, pelo que poderia ser uma passadeira rolante, o amor. Ele encaminhava-nos pelo horizonte. E quantas vezes vimos o nascer do Sol, erguendo-se lentamente para nos iluminar?
Recordo-me como se fosse hoje aquele amanhecer inesquecível junto ao farol de São Roque, quando os primeiros raios desfilavam na tua cara linda e tu sorrias e me dizias: O Sol já nasceu, e mais um dia o meu amor por ti cresceu. Mas por que o Sol ainda nasce, se a minha vida sem ti é noite? Se tudo hoje é negro, ou uma cor qualquer vestida de preto? Se o Sol nasce e já não me aquece? Se eu procuro-te e já não te encontro? Se eu vivo e já não sinto o sabor da vida? Mas digo-te a ti que essas tuas palavras são hoje verdades do meu coração para o teu, esteja ele onde estiver...

  O Sol continua a nascer e o meu amor por ti continua a crescer.
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 * Carta 4 de 7 de "Pedaços de mim, Pedaços de Nós" - 3º premiado do VI Concurso Literário Francisco Álvares de Nóbrega - Camões Pequeno

4 de abril de 2012

"Pedaços de mim, Pedaços de Nós" - Carta III


  
Minha doce borboleta,

Hoje beijo o silêncio perfumado de ti e suspiro alegremente. Não estás comigo, mas consigo sentir-te. E em todas as nossas recordações, mordo-me de saudades, em lágrimas decadentes, esquecendo-me quem sou. Esquecendo-me de algo chamado futuro. Esquecendo-me daquilo que preenchia contigo o meu coração; uma menina dócil, brincando com uma bonequinha tão querida quanto ela, uma menina que eu chamava Felicidade. Essa menina existia contigo. Agora não a vejo, vejo apenas a boneca ali abandonada no chão e ao seu lado, sorrindo, uma bruxa chamada Tristeza, ao lado dum monstro chamado Sofrimento.
Recordo com esse monstro a última vez que estivemos juntos, e é uma dor que atravessa bem fundo a planície dos meus sonhos. Tu estavas aqui, fremente e nua, deitada bem junto a mim. Tuas mãos fechadas, de medo, de incertezas abriram-se e dirigiram-se para a minha face. Tremias, e eu é que sentia medo. Acariciaste-me, arrepiando cada pedaço de pele do meu vulnerável corpo. Lá fora começara a chover. E no tilintar dos pingos de chuva que para lá da vidraça ecoavam, beijaste-me num momento tão de si saciável, com uma ternura que só tu eras capaz de transmitir. Teus lábios doces, que ainda hoje guardo o sabor, percorriam assim as ruas do meu corpo, como se eu me sentisse numa moldura de um génio pintor.
Queria mais, queria muito mais. Queria intensificar o sentimento que surgia no meu coração. Massajei teu pescoço, conseguindo sentir os arrepios que se instalavam em ti, e deixei as minhas mãos correrem ao sabor daquela profanada vontade, […] culminada no silêncio rangente dos nossos corpos suados, enfim, já destinados ao descanso, saboreando o cúmplice momento. E ficámos aqui, nas carícias que tanto adorávamos, apenas com um lençol sobre nós olhando o coração que um dia desenhei no tecto deste quarto. O quarto até podia ser pequeno, mas o nosso amor era tão grande! Era e sempre será. Podes estar onde estiveres, posso nunca mais te olhar, te tocar, mas meu coração nunca deixará de sentir o sentimento que tão deliciosamente nasceu. E talvez seja por isso que sinto-me a viver num mundo que não é o meu, feito de personagens de um filme onde não me encontro no guião.
Dizem-me que tenho de me conformar, que tenho de deixar de pensar sempre em ti, mas não consigo pois é impossível esquecer-te. É impossível esquecer uma vida que criámos, insubstituível por qualquer outra escolha humana possível, porque a nossa vida era mais que humana, era transcendental, puramente divina.
Hoje deves estar com os anjos… Falando de mim, das loucuras que cometemos como dois parvos… Pois, não dizem que o amor faz as pessoas parvas? É verdade. Fomos parvos desde que decidimos partilhar a nossa vida indefinidamente. Uma vida plena de afinidades, como se tivéssemos um idioma só nosso, feito de expressões corporais. Havia uma cumplicidade que lampejava, mesmo que não estivéssemos perto um do outro, mesmo que nossos olhos não se cruzassem. Completavas-me em absoluto. Parecia tudo perfeito. Desde o acordar até ao adormecer… Nas pequenas e nas grandes coisas…
Lembro-me das manhãs maravilhosas em que os raios do Sol rompiam pelo quarto adentro, quando te levava o pequeno-almoço à cama. Recordo-me das nossas birras, que rapidamente desapareciam, dos devaneios na piscina, das confusões na cozinha, dos caprichos na cama, até das “secas” que, sem querer, por vezes me davas… Tudo, tudo completava-me.
Contigo não havia gesto inacabado, não havia história sem fim, nem Sol escondido para um lindo jasmim.
Contigo… Sorria.
E como gostava de viver assim!
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* Carta 3 de 7 de "Pedaços de Mim, Pedaços de Nós" - 3º premiado do VI Concurso Literário Francisco Álvares de Nóbrega - Camões Pequeno

19 de março de 2012

"Pedaços de mim, Pedaços de Nós" - Carta II

Imagem retirada da Internet

Meu amor,

A angústia escorre pela minha mão, por isso necessito escrever-te esperando que este compasso do coração se acalme. Hoje li uma frase que dizia: Ame as pessoas como elas são e não como gostaria que elas fossem. Deitei uma nostálgica lágrima no canto do olho, e pensei em ti. Porque eu te amava como eras… E eras exactamente como eu gostaria que fosses! Agradeço-te os segundos, as horas, os dias, meses e anos que passaste ao meu lado sendo uma perfeição de companheira. Agradeço teres trazido vida aos meus dias, teres trazido brilho aos meus olhos, teres transformado o que havia diminuto no meu coração em algo maior que o infinito.
Conseguiste despertar o melhor que estava adormecido em mim; a nossa união sentimental tornou-nos pessoas melhores para com o mundo. Conseguimos juntos fazer pequenos instantes se tornarem em grandes momentos. Momentos que guardo com enorme carinho na poesia do meu coração. Quem me dera que esses momentos passados pudessem se perpetuar indefinidamente! Este amor que sinto é tudo o que carrego dentro de mim. Por isso se pudesse trocaria todos os meus dias futuros, por um único dia contigo. E esse dia seria tão perfeito, que eu alcançaria a mais plena das felicidades, e num suspiro de satisfação morreria.
Meu amor, esta noite estive no areal dourado da praia de Machico, e sofri a cada pegada deixada na areia, lembrando-me quando olhava para trás e via também as tuas pegadas. Parei, sentei-me e lancei meu olhar sobre o mar. Com o meu tresloucado pensamento fui até ti; estavas ali na penumbra do horizonte.  Foi lindo ver-te.  O meu coração batia tão depressa e só queria que aquele momento perdurasse eternamente. Olhavas para mim, sorrindo e estendendo a tua mão. Falei contigo sem saber o que dizer, pois sentindo-te tão perto de mim, não te podia tocar, não podia alcançar-te. Tu ali tão perto e eu cheio de saudades.  Relembrando como era bom estar na tua presença, lembrando-me do teu corpo, de cada gesto, cada olhar. Era lindo... Era tão lindo estar contigo! Gritei pelo teu nome, mas não me ouviste e, de repente, vi-te cada vez mais longe, desaparecendo na paisagem intacta do impune horizonte.
Foi um momento de loucura. Mais um. As lágrimas queriam se apossar da minha face.  Levantei-me apressado, com as mãos carregadas de areia sufocada de meus punhos. Um sufoco também no meu coração. Parti da praia e procurei caminhos, procurei respostas, procurei encontrar-me. Vagueei sozinho pela baixa da cidade, relembrando lugares e momentos que me fizeram feliz, relembrando segredos que me confiaste. E nessa deambulação, a noite encolerizou meus sentimentos e estimulou meus sonhos. Sentia uma angústia neste coração prestes a libertar emoções amordaçadas. Desejando que aparecesses, de súbito, na esquina de uma rua, no baloiço do jardim… Enfim, no meu caminho de dolência, cheio de abismos e sobressaltos, numa descrição suave e plena de romantismo. Meu olhar perdeu-se na tua transcendência, e eu caminhava já sem saber por onde ir, cheio de frio, com os pêlos arrepiados, contigo no pensamento, contigo no coração. Contigo sempre, até ao caixão.           
Sabes, meu amor, eu queria tanto dar um passeio pelo mar contigo por uma última vez, cheirar o vento cheio de magia, cheio de ti, e depois perder-me contigo nas ondas do mar, perder-me num suspiro e num beijo, perder-me num sorriso… Perder-me e ser feliz. Mas tudo isto não passam de sonhos e ilusões resultantes destas vulcânicas saudades. Sim, estou sozinho e só sei que agora está frio, e não te tenho aqui para me aqueceres.
E fico aqui deitado no nosso sofá, apenas com um cobertor que me resguarda, pensando em ti... Acariciando a minha almofada, suave, tão suave como a tua voz que ecoa em meus ouvidos e aquece o meu coração. Meu olhar se perde em sonhos… Bem que podias voltar, deitares-te nos meus braços e juntos escutarmos a chuva que começa a cair lá fora. Lá fora e cá dentro. Cá dentro… Chuva de lágrimas. Vem, aquece-me, enxuga as lágrimas do meu olhar com o teu jeito doce de amar. Deixa-me sonhar. Porque até ao infinito do sonho, a tua luz brilhará na minha vida.
Amo-te.
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* Carta 2 de 7 de "Pedaços de Mim, Pedaços de Nós" - 3º premiado do VI Concurso Literário Francisco Álvares de Nóbrega - Camões Pequeno

10 de março de 2012

"Pedaços de mim, Pedaços de Nós" - Carta I


Imagem retirada da Internet

Querida,

Preciso escrever-te. Preciso escrever-te, porque te amo. Amor que fervilha cá dentro, misturado num rasgo de dor pela tua eterna ausência. Quero escrever-te com palavras simples, como eu, como nós, como o nosso amor. Palavras que transbordem sentimentos, palavras que eternizem momentos, palavras que representem sonhos e realizações. E sei que não realizámos tudo aquilo que sonhávamos. Isso magoa-me. Por isso muitas das palavras que te escrevo são palavras sofridas, pinceladas com lágrimas que caem do meu rosto.
Estou sentado na varanda do nosso quarto, onde inúmeras vezes nos sentávamos abraçados, num silêncio cúmplice e intimista. Observo a baía de Machico sempre bonita, e recordo numa sufocada memória os vários momentos vividos intensamente perto dela. Sabes, contigo a baía era muito mais bela.
Escuto o canto das gaivotas lá ao fundo, vejo bem longe as luzes dos barcos de pesca, e sinto uma brisa envolver minha pele com a mesma mansidão triste que as saudades de ti envolvem meu coração. Foram essas saudades que levaram-me a abrir o nosso cofre, e fizeram-me reler as primeiras cartas que me enviaste. Relê-las, traz-me uma singela sensação de paz, ao mesmo tempo que tortura meu coração.
Percebo que o teu amor ultrapassou as barreiras do meu imaginar, por isso talvez sejas mais do que todas as letras que consiga alinhar nesta carta que nunca lerás. O tudo é pouco, quando penso e falo de ti. Porque tu foste capaz de me levar a lugares que nunca imaginei existirem, sem que meus pés sequer saíssem do chão. Quero agradecer-te por isso. Quero agradecer-te pela perfeição que foi a nossa vivência. Nem a poesia mais bela é capaz de descrever amor tão sublime.
Deito-me no nosso cadeirão e abraço a tua ausência. Se calhar hoje adormecerei aqui. Sinto a impossível esperança de voltares quando acordar, como vimos no filme “If Only”: Ter-te só por mais um dia e, no fim, ser eu a partir para tu ficares.
As lágrimas passeiam na minha face. Dói pensar. Dói viver sem ti. Volto a pegar nas tuas cartas. Sabes, elas ainda têm o teu doce perfume. Sinto-te tanto! Os meus sorrisos inocentemente espontâneos, brilham nesta noite insípida, por cada frase que meus olhos lêem. Respiro um ar diferente. Talvez um ar com partículas de amor, misturadas com a essência do divino. Ar que inúmeras vezes nos faltou, quando olhávamo-nos como se o mundo fosse acabar nos próximos instantes e nunca mais nossos olhos se beijassem.
 Recordo quando segurei o teu doce rosto e disse-te que nunca vi nada mais lindo na minha vida. Pura verdade, essa beleza que vinha da profundeza do teu interior, espalhando-se por cada parte do teu corpo. Quando olhei-te nos olhos e não consegui dizer palavra alguma, apenas chorei. Eu não te amo. Isto não é amor! Deve haver algo que traduza melhor isto que agita cá dentro. Começo a sentir necessidade de criar uma palavra nova no meu vocabulário. Sim, uma palavra que defina na plenitude esta colmeia de sentimentos que nutro por ti. Vou criar essa palavra no meu silêncio, e nessa mudez te gritarei com toda a intensidade do meu palpitante coração. Um coração incontido, perfurado com o golpe cruel do destino.
Há uma inquietude gritante dentro de mim! Choro. Choro porque esta dor de perder-te para o berço da morte, aguilhoa-me continuamente. Tu invadiste a minha vida de mansinho e fizeste-a entrar numa rota mágica. Foste a personificação de tudo aquilo que sempre sonhei, até conseguiste ser maior do que julgava-te em sonhos. Foste a minha digna princesa e orgulhavas-te de ser eu o teu príncipe. Eu amei-te… Num cristalino amor que tu me retribuíste. Entreguei-me a ti, todo, completamente, pela certeza desse amor e recebi-te, como um menino que recebe o brinquedo dos seus sonhos que jamais acreditava receber. Amei-te tanto que, às vezes, até esquecia de gostar um pouco de mim. Tudo o que tinha cá dentro era para ti. E como eu era tão feliz!
Ontem, enquanto passeava pela Alameda dos Álamos, observei um casal a discutir, com semblantes de raiva e ódio. Onde estava o amor? Onde está o amor neste mundo hipócrita? Porque é que quem tem oportunidade de amar inteiramente de coração não valoriza o amor? Porque é que a maioria das pessoas quando perde alguém, quando já é tarde demais, é que entende a preciosidade desse sentimento? Ou nunca entende… Que pobreza interior! Apeteceu-me dizer àquele casal: Amanhã pode ser o último dia da vossa vida, é isto que querem levar? Amem-se simplesmente.
Continuando o meu passeio, lembrava-me quando caminhavas comigo. As nossas mãos entrelaçadas, os nossos olhos cintilando, as palavras confidentes e íntimas que trocávamos… Quantas vezes te abracei, esquecendo tudo à nossa volta! Era tão lindo prender-te nos meus braços, beijar-te, fazer-te aquelas cócegas e encher-te de mimos. Navegávamos para um mundo só nosso, que criámos com cada fragmento do nosso amor, e quando voltávamos, olhando a multidão à nossa volta, ríamos… Ríamos tanto!
Oh, que saudades meu amor dessas doces viagens. Hoje sei que nunca mais serei feliz, como fui contigo. E se surgir alguém que se atreva a dizer que pareço feliz, acredita que certamente será uma falsa felicidade. Levarei esta dor cravada no meu coração desfigurado, e nem o tempo, o silêncio e a tua ausência farão com que eu deixe de amar-te.
Porque amar-te é tudo o que me resta nesta vida. 
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* Carta 1 de 7 de "Pedaços de Mim, Pedaços de Nós" - 3º premiado do VI Concurso Literário Francisco Álvares de Nóbrega - Camões Pequeno