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29 de agosto de 2012
2 de julho de 2012
"Pedaços de mim, Pedaços de Nós" - Carta VII (última)
Minha querida
Inês,
Sinto a tua falta, hoje
mais do que todos os dias anteriores, pois faz um ano que partiste. Deves fazer
ideia do que estou a sentir. Do que desejaria não sentir. Faço um esforço
enorme para secar meus olhos, mas é impossível pois estas lágrimas não param.
Elas escorrem como sangue, e desejo desesperadamente parar de sentir. Mas não
paro. Sinto, sinto-te cada vez mais. Sinto-te neste ar que respiro, entrançando
meu coração em fios de dor. Sinto como se os anjos soprassem no nosso quarto a
essência do teu ser. E assim, deitado entre os lençóis, numa tempestade de
lágrimas, respiro-te. Respiro-te porque adoro-te, respiro-te porque amo-te.
Porque toda a hora anseio-te e espero-te, mesmo sabendo que nunca mais
voltarás.
Hoje vou
ganhar coragem e irei visitar a tua campa. Vou levar-te a nossa primeira foto
juntos, que guardei com especial carinho. Vou levar o teu sorriso, que se
eternizou no meu coração. Também levarei os desejos que te invocam. Levarei as palavras
que me ofereceste, os beijos, os sussurros… Levar-te-ei inteira comigo! Triste
pelas palavras que não falei, pelos olhares que não lancei, pelos momentos que
não realizei. Deixarei teu espírito envolver-me, deixarei me abraçares como o
fizeste no dia do teu sepulto. Meu corpo todo arrepiado, sentindo-te tanto,
criando dentro de mim um vulcão a transbordar lava de saudade. É uma saudade de
ter, de ser, de lembrar, de ver e sentir.
Às vezes me pergunto, porque te amo tanto, ao ponto de não querer amar
mais ninguém? Pergunto na esperança de esquecer a resposta. Mas ela surge
sempre na minha mente. Porque tu me amaste com a mesma intensidade, morreste me
amando, e eu nunca esquecerei isso. Sei que nunca encontrarei alguém que possa sequer
chegar perto do teu amor, alguém que consiga me cativar da maneira que o
fizeste. Serás sempre aquela pessoa que lembrarei antes de adormecer, e a
primeira pessoa que pensarei, assim que despertar pela manhã.
Já revi vezes sem conta o nosso álbum
de fotos. Às vezes passam horas desde que o abro até fechá-lo. Para mim parecem
segundos, pois perco-me no tempo, ao ver desfilar no meu pensamento tantos bons
momentos da nossa vida. E como tu eras linda, meu amor. Tu
eras maravilhosamente linda, mesmo que estivesses de pijama velho e cabelos
emaranhados. Lembras-te daquele fim-de-semana nos Maroços, quando fomos ajudar o
teu pai a regar a fazenda? Estavas com uma camisa xadrez dele, que te ficava enorme,
usavas uns calções de ganga desbotados e calçavas botas de água. E mesmo assim
continuavas linda. Como era bom apreciar-te, sabendo este sentimento cá dentro
te venerando.
Quero que nunca duvides
que continuarei a venerar-te,
continuarei a amar-te, pois mesmo que tenhas morrido para o mundo, vives
eternamente dentro de mim. Quero que em todas as palavras que te escrevo encontres
a minha essência; entendas o meu querer, compreendas o meu sentir, e este
nefasto pensar que me vem agoniando. Aqui, mergulhado em saudades, já tenho as
lágrimas transfigurando meu rosto. Fecho os olhos. É como se estivesses
aqui. Abro os olhos e vejo teu corpo a afastar-se, a fundir-se com o horizonte.
Pareces voltar, mas não; é apenas um avião que atravessa a baía de Machico. Ele chega. Mais tarde partirá. Como tu
partiste.
Não! Tu não partiste!
Estás comigo. Aqui.
Agora. Sempre.
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"Pedaços de mim, Pedaços de Nós" - 3º premiado do VI Concurso Literário Francisco Álvares de Nóbrega - Camões Pequeno
16 de junho de 2012
"Pedaços de mim, Pedaços de Nós" - Carta VI
Flor dos meus
olhos,
Hoje é quarta-feira. O
mundo lá fora passa. E eu que tanto sonhei, e eu que quis viver na profundeza
do teu amor, estou aqui, reflorescendo numa flor cheia de medos. A dor, em mim
tingida, enche-me o coração… Essa dor, pintada de uma negra cor, me possui de
solidão. E se viesses invadir com esse teu jeito estonteante, este mundo
desventurado, quebrando as regras dos céus, deste universo imperioso? Esta
quarta feira, certamente seria diferente.
Parece que as horas não
passam. Ah, meus nobres pensamentos, que bondosamente vão dando um pouco de
paladar a esta amarga vida. Sabes, enquanto estiveste ao meu lado tentei dar-te
tudo aquilo que uma mulher merece. Não era nenhum desafio, mas um propósito genuíno
do meu coração. Às vezes, porém, acredito que não disse as palavras perfeitas,
na hora certa, no momento exacto. Sei que me desculpas isso. Pois sabes que
envolvi o teu coração e o teu corpo com toda a minha ternura, fazendo com que
respirasses uma delicada paz. Tentei sempre que estava ao meu alcance não
permitir que a dor, por mais leve que fosse, chegasse até ti. Amei e entendi os
teus silêncios, e agradeço-te teres respeitado os meus. Hoje consigo perceber
plenamente porque dizem que os amores profundos cultivam-se em silêncio. Estive
ao teu lado nos momentos de inquietude, e tentei serenar-te mostrando soluções para
os problemas que te perturbavam.
Amei-te todos os dias, como se não houvesse amanhã, e sentia o teu
contentamento por isso. Ver teus sorrisos era para mim uma gratificação espantosa.
No teu rosto lembrarei sempre a moldura desses sorrisos. Por mais tempo que passe é impossível
esquecer tudo aquilo que vivenciamos. Duas vidas que se uniram numa união
perfeita, sendo impossível separá-las. Não é a tristeza da tua morte que fará
com que este laço que nos uniu se desenlace... Não, meu coração prende-o fortemente,
como prometemos naquele dia em que estávamos vendo o pôr-do-sol: Amar-nos eternamente.
Minhas lágrimas hoje caem das lembranças de momentos só nossos, momentos
lindos, momentos íntimos que nos davam uma felicidade indescritível. Sei que um
dia partirei para onde tu partiste, levarei este coração que tem teu retrato
como pano de fundo, e feliz descansarei...
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Carta 6 de 7 de "Pedaços de mim, Pedaços de Nós" - 3º premiado do VI Concurso Literário Francisco Álvares de Nóbrega - Camões Pequeno
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